LAGUNA.

NÃO VERÁS LUGAR COMO ESTE.
AMA DE VERDADE
A TERRA EM QUE NASCESTE

segunda-feira, 5 de junho de 2017


O PINHEIRO E A NUVEM 
5 de maio, Dia do Meio Ambiente
                                                 por márcio josé rodrigues

Nas antigas florestas deste lado do mundo, uma grande amizade nascera e se perpetuava por tempos imemoráveis, entre as árvores e as nuvens.
Nuvens parecem todas iguais, são disformes, ou melhor, conseguem mudar a todo instante.
Dizem que são passageiras. Mas, acredite, elas têm coração, sentimentos e uma memória inapagável.
Uma delas tinha uma especial afeição por uma gigantesca araucária que havia nascido numa colina à beira de um paradisíaco vale, há mais de mil anos.
Araucaria brasiliana - pinheiro catarinense.

O lugar onde a semente caíra era uma fenda em rochedo alto e inóspito, exposto aos raios inclementes do sol.
Mas era uma plantinha valente, aquele pinheirinho. Infiltrou suas débeis e pequenas raízes em todos os minúsculos espaços onde havia qualquer nutriente que a ventania, porventura, se encarregava de alimentar.
O pequeno arbusto havia conquistado sem o saber, uma madrinha entusiasmada com sua coragem e persistência, uma daquelas nuvens que passavam por aquele lugar.
Quando ela voava rente ao topo da colina em sua ronda em torno do planeta, fazia chover sobre ele uma garoa suave e vivificadora, fresca, que o aspergia e encharcava de carinho, o bastante para mantê-lo vivo e ainda mais encorajado.

Com mais abundância a água generosa e farta alimentava o gracioso rio que corria pela campina lá embaixo.
Então ele agitava alegremente sua copa ao vento e desprendia um suave aroma de sua essência preciosa.  Assim, sua amiga partia totalmente perfumada, de volta à rotineira viagem, levando consigo aquela lembrança de seu amigo.
Ele cresceu, rompeu e despedaçou a rocha, ganhou a terra profunda.
Tornou-se um respeitável gigante. Produziu incontáveis pinhas estufadas de saborosos pinhões, alimento fundamental de muitas espécies de animais, entre eles, as ruidosas gralhas azuis que se encarregavam de espalhá-los pela mata onde nasceram outros tantos pinheiros, seus filhos.
Um dia, porém chegaram os homens de pele clara, com suas mulheres e crianças e seus machados de ferro. Iniciaram um lento processo de destruição e abertura de clareiras para construírem suas casas, perseguindo e matando os animais, caçando e exterminando os antigos habitantes de pele escura que viviam em paz com a mata. Depois mandaram notícias aos seus semelhantes e eles continuaram chegando cada vez mais numerosos, em multidões furiosas, com mais ferramentas, doidos varridos de ambição e morte.
Descamparam a antiga floresta para suas estranhas plantações, poluíram o cristalino rio com venenos desconhecidos, extinguiram os peixes e aprisionaram as aves.
Rasgaram estradas em uma incontrolável fome de mais árvores para simplesmente queimar ou fazer mais casas, currais e cercas, pois se achavam donos da natureza e marcavam com estacas e paliçadas tudo aquilo de que tomavam posse.
 E assim se foram as imbuias, os pinheiros, os jacarandás, as caneleiras, as perobas e os garapuvus.

Certo dia aconteceu o que jamais ninguém imaginara, nem mesmo os mais antigos daqueles doidos. O rei da floresta, a mais idosa de todas as árvores, não resistiu a dias e noites a fio, de tortura a golpes de machado.  
O velho majestoso pinheiro, orgulho daquele lugar também tombou.
Quando as nuvens retornaram e viram a devastação ficaram perplexas. A nuvenzinha, porém, ao perceber o desaparecimento do querido amigo, entrou em desespero. Voou pelas vizinhanças à sua procura, contorceu-se, rodopiou mil vezes a chamar alto por seu nome sem, contudo, obter resposta ou, quem sabe, sentir um só resquício de seu perfume.
Ao seu desespero uniram-se as demais amigas e, tantas eram, que esconderam o sol. Por dias e noites sem parar, clamavam e seus gritos desesperados eram trovões que ribombavam pelas quebradas das montanhas, fazendo tremer tudo em volta. E acenderam suas luzes para iluminar a escuridão e suas luzes eram raios fulminantes que incendiavam e matavam, colocando os homens em pânico.
Cansadas e sem mais esperança daquela procura insana, puseram-se a chorar de dor e desespero e suas lágrimas copiosas fizeram transbordar o rio, inundaram as cidades, matando, fazendo desmoronar as encostas, soterrando casas, carregando suas pontes, deixando em tudo, um palco de terror e desolação.
Quando o vento as empurrou, enfim, para o vazio do espaço, quando o céu recuperou sua cor azul, não restara muita coisa daquilo que era o lugar das pessoas.
E as pessoas também choraram seus mortos, desaparecidos e suas perdas irreparáveis.
O sol voltou e eles recomeçaram suas vidas tentando reconstruir seus lares naqueles mesmos espaços em que se amontoavam.
Com certeza, vão buscar novas árvores, cada vez mais longe.
As nuvens estão agora em viagem ao redor do mundo.
Elas voltarão na próxima primavera, ou quem sabe no inverno ou outono à procura das suas amigas. 
E, com muito mais saudade, vão chorar de novo e de novo, talvez muito mais e com maior desespero. E destruirão muito mais enquanto os homens não aprenderem a conviver com a natureza.

https://www.youtube.com/watch?v=s9PQ7qPkluM
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sábado, 13 de maio de 2017

Dona Quena (Lourival Mattos Rodrigues) professora.
Na foto, quando diretora em Gravatal - G.E. Grealdina Mariaia Tavares

 Cartinha com Endereço Céu.

Mãe, estamos doentes das emoções.
Estamos insatisfeitos, decepcionados, desiludidos, desorientados e infelizes.
Mãe, um grande psicólogo chamado Augusto Curie, que já vendeu mais de 20.000.000 – vinte milhões de exemplares de suas obras de fama mundial, afirma que a cada dois de nós, um está doente das emoções, sente medo, angústia, depressão, não se adapta mais ao meio em que vive e não se encontra a si mesmo. Então, somos quase 4 bilhões de doentes que nos atiramos a esperanças inexistentes nos smrtfones, tablets, redes sociais, shoppings ou encontros vazios para bebidas e drogas, mesmo as que, em solidão, consumimos em casa com receitas médicas autorizadas, mas nenhum desses meios nos acolhe ou nos consola. Nem os clubes, nem as igrejas, nem as os ritos tribais dos encontros musicais frenéticos, todos de algumas horas de apenas esquecimento, sim, porque estamos fugindo da consciência.
A sociedade atual afirma que família é coisa velha e acabada, que pai e mãe são figuras ultrapassadas, obsoletas e prejudiciais à nossa liberdade, e nos induzem a problemas mentais, insegurança e perda da personalidade.
Os poderes que dominam os povos desmantelam a família de pai, mãe e filhos, de maneiras sutis ou escancaradas, para nos manterem divididos, obedientes e fracos.
Mãe, desapareceu o aconchego fofo, daquele ninho tão único, o cheiro tão peculiar, o calor tão personalizado. Ah, e aqueles dois braços firmes e suaves cruzados sobre nossas costas trazendo junto um rosto inclinado sobre nossos ombros em contato com nossa face e um coração cantando sobre o nosso como se estivessem conversando.
Esta medicina, esta cura, esta felicidade concreta está se esvaindo do mundo.

Mãe, que falta, que vazio sem esperança, que saudade.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

                        O ARTIGO TERCEIRO (7)
                             A MOSCA AZUL
                                           márcio jose rodrigues

Já faz incontáveis eras que os sapolíticos esquartejam e dividem entre si o poder sobre Lagoa. Desde imemoráveis tempos os sapoderosos vêm montando uma intrincada rede, um emaranhado de truques e armadilhas para chegar aos seus fins e legitimar a divisão e mando sobre os demais.

Foi assim que criaram os sapartidos políticos.
Sapartidos são labirintos ideológicos cheios de doutrinas e segredos, cores e bandeiras, incontáveis siglas e credos falsos. São tantos os sapartidos, que o atônito povo fica desnorteado e então segue os apelos da sapropaganda dos Sapeéssedês, Sapetês, Sapeésses, Sapsóis e dos sapeláquemaisoquê.
       Cabe aos sapartidos apontar seus paladinos ao grande torneio eleitoral da primavera, um Saprefeito e alguns veraneadores (sapolíticos que tomam posse no verão – mas há controvérsias).
Como os anfíbios são avessos ao frio e só gostam de aparecer nos tempos de calor, convencionou-se também chamar assim a um grupo de eleitos encarregados de fazerem e adaptarem as leis lá na Toca do Povo e de acordo com as marés e seus próprios interesses. A toca do povo foi rebatizada de Câmara dos Veraneadores.
      
Para muitos sápios e sapensantes, veraneadores são um anacronismo, um peso morto na economia e nem deveriam mais existir.
Quem os coloca lá no topo, quem legitima seu “status”, paradoxalmente, somos nós os bagres, tudo na forma e na força da lei.
     
      De quatro em quatro anos ou 210 luas no tempo contado à nossa moda, somos obrigados pela força da lei a escolher os nossos representantes no poder lagoense através do torneio eleitoral, “a guerra dos sufrágios”.
O torneio também é um jogo de risco inevitável para evitar males maiores, até mortes, mas também uma chance de mudarmos o destino de Lagoa e banirmos os malfeitores para o esquecimento e desterro político.
Perdoem-me as ostras, mas isto é o que nós chamamos ostracismo.
Mas, uma estranha anomalia, uma espécie de doença mental toma conta de Lagoa inteira nos tempos do torneio. Para alguns, escolher os representantes no governo é um momento solene de responsabilidade e dever.
Infelizmente, para os demais, somente uma farra, um tempo de alucinação, perda total do juízo, um desligamento mórbido da realidade onde amigos tornam-se inimigos mortais e famílias rompem elos imortais.
Um sufrágio, o voto, é uma fagulha de poder que até aos bagres é concedida, mas somente por um segundo num período de exatos 1.461 dias.
Uma preciosa, frágil e enganosa mosca azul.
É a efêmera, mas suprema autoridade e direito de escolher seus governantes.




Conta-se que a certo vivente foi concedida por Mãe Natureza, uma visão profética sobre seu sufrágio.
Em transe ele se viu como um dos candidatos ao poder. Em suas mãos haveria uma Lagoa limpa e embelezada, trilhas bem cuidadas, todos os filhotes na escola, saprofessores satisfeitos, uma sapolícia civilizada garantindo segurança e todo o povo feliz, cada um desempenhando seu papel com alegria e satisfação.
Também mostrava como seria Lagoa nas mãos de Sapolítico, o inverso de tudo, uma visão tenebrosa do caos, da desorganização, da mentira e da fraude, das greves, dos protestos, do roubo, do crime, do desemprego e as crianças chorando de fome.
A história correu todos os recantos.
Os viventes ficaram deslumbrados com as maravilhosas revelações. Finalmente, uma luz na escuridão começava a brilhar e uma nova esperança pairava sobre o destino de Lagoa.
As multidões o seguiam como a um comandante autointitulado o “soldado eleitoral”, defensor da terra mãe, da decência, da ordem e do direito.
Sapolítico não tardou a perceber esta força descomunal. Usando as artimanhas da velha sapolítica ancestral, jamais o atacou, mas passou a segui-lo como toda a massa. Em pouco tempo já marchava ao seu lado, apresentando-o como o novo salvador, não mais um simples soldado. Sem perder a oportunidade e com muito bom papo logo o promoveu a um posto mais destacado, “cabo eleitoral”, um modelo, o paradigma, cuja palavra deveria ser ouvida com atenção.
O recém  promovido cabo eleitoral passou a gostar das bajulações, dos abraços e da comida farta dos banquetes e em pouco tempo a visão saprofética foi se contorcendo, desbotando, esfumaçando-se.
Sapolítico já o tinha quase fisgado pela vaidade.

Em uma noite escura e silenciosa, numa ceia estupenda de finas iguarias, regada a sucos raros, bateram muito papo.
Soprou-lhe o medo!
 “E se perdesse o torneio? Como enfrentaria a vergonha, o que diria a família?
Faltava agora só o veneno da ganância.
Sapolítico estendeu-lhe uma taça reluzente e lhe fez provar um gole de uma bebida mais doce que o lendário hidromel, o novo ópio dos deuses, a sapropina!
 A sapropina mostrou-lhe uma trilha mais eficiente que o esforço, mais segura que o risco e mais suave que cansaço do trabalho, uma mágica mais rápida de se igualar aos sapoderosos, de ser visto ao lado deles, de morar em tocas iguais, de frequentar os mesmos lugares, de reinar sobre os insignificantes.
O profeta da visão cósmica agora era um novo saprofeta a serviço de “o poder”.
Os demais crentes que o seguiam como carneiros também passaram a barganhar seus sonhos contidos em cada sufrágio, por uma cuia de minhocas e besouros consumidos em um só dia.
Sapolítico venceria mais uma vez.
A vitória trazia seu pesado ônus de viver eternamente a sina de medo e da ansiedade.
Tinha um longo caminho a percorrer entre barganhas e acordos para conviver com os insaciáveis veraneadores.
À sua frente o implacável “fio da navalha” (1) por onde haveria de caminhar todos os dias enquanto ambicionasse o poder.

Em pouco tempo o pobre saprofeta , foi abandonado à sua miséria e como um demente, molestava os passantes, tentando contar-lhes sua triste história de como teria sido se não matasse sua oportunidade.
Para ele chegara o ostracismo.

          


A Mosca Azul (Machado de Assis)


Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
— "Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?"

Então ela, voando e revoando, disse:
— "Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor".

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Caxemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí sai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

       O ARTIGO TERCEIRO (6)
   O PODER
                                           (texto e postagem márcio josé rodrigues)

            Quando Mãe Natureza Criadora gerou os viventes deu-lhes três dons:
- Uma inteligência para aprender as coisas necessárias de viver, uma vontade para agir e sobreviver e uma consciência para dizer o que é certo ou o que é errado.
Ficou estabelecido que todos podem fazer o que quiserem, desde que  obedeçam à consciência e não façam nada de ruim à natureza (que, é o conjunto do ar e dos ventos, da água, dos rios e fontes, da terra onde pisamos e de tudo o que nela vive).
Todo indivíduo que cuida da natureza é um político.

Botos pescadores no canal  da barra - Laguna (foto Elvis Palma)



Mas, um dia, há muitos séculos atrás, apareceu uma doença misteriosa que atingiu a consciência de alguns viventes, "o poder."
Foi assim que nasceu o primeiro Sapolítico, que é um indivíduo doente de “poder”.
O Poder é uma anomalia ou disfunção, um acidente nos caminhos da evolução que aconteceu na espécie dos sapos e vem afetando muitos indivíduos há várias gerações.
O poder se origina num lugar da personalidade de cada vivente, chamada Consciência Moral, que cada criança vai adquirindo aos poucos desde cedo e pela vida toda, por meio  da educação, como respeito, compaixão, direito, dever, verdade, justiça e liberdade.
Os grandes Sápios chamaram a esta consciência moral de Superego.
E quem não tem superego é conhecido como Psicopata, que é um predador além da necessidade de viver.

Não é fácil distinguir um psicopata entre os demais da população.
Porque eles são mestres no disfarce. São muito inteligentes e sabem ser encantadores.
São mentirosos descarados, convincentes e muito imaginosos.
São fascinados pelo poder.
São capazes de qualquer coisa, para ter o poder, Ficar no poder, Conservar o poder.
Esta “qualquer coisa” inclui mentir, enganar, encantar, fingir, representar (e coisas muito piores, horrendas).
Eles não sentem remorso, nunca, não têm a consciência moral para se arrependerem de nada.
Passam por cima de colegas, caluniam, denunciam, bajulam, sempre para subir mais no poder.

Agora, preste atenção neste sinal muito claro:
Eles não sentem gratidão.
Jamais terão algum reconhecimento por algo que você fez por um deles.
Se você já recebeu esta resposta, “você fez porque quis, eu não lhe pedi”, você pode estar diante de um psicopata.

Enfim, “O Poder” os seduz e os deixa completamente alucinados. Possui um feitiço que os domina de tal forma, que neles, corpo, mente, coração, existem somente em função de “O Poder”.
Um Sapoderoso é movido por três forças que podem ser também sua fraqueza: a ambição, a vaidade e o medo.
Por isso, precisam ser muito ricos e não importam os meios.


Precisam ser ricos para terem “amigos” e serem admirados, balulados.
Para serem ricos corrompem e são corrompidos.
Mas vivem em estado de angústia permanente, pois não são amados.
Não podem confiar em ninguém.
E vão viver assim para sempre, em sobressalto permanente, em guarda, sem trégua nem descanso, sempre desconfiando, acordados ou dormindo.

Se você ainda quer o poder, saiba que não poderá nunca mais sentir nojo, vergonha, compaixão ou remorso - e paz.


Medo

Medo, o algoz que atormenta,
Invadindo tua noite solitária,
Em cada canto escuro se apresenta
Imagem de fantasma, imaginária.

Vampiro mau de asas monstruosas
Que se debruça e te oprime o peito
Sombras do mistério, tenebrosas,
Que te sufocam no teu próprio leito.

Ah! Que angústia, dor e sofrimento.
Sentir o coração bater incerto.
Lá dentro, fria, a garra poderosa,
Cruel, tenaz, sem afrouxar o aperto.

Um poder que não se mostra, entanto,
Demônio pronto a aparecer num instante,
Presença ruim envolta em negro manto,
Prestes a troar, num grito horripilante.





sábado, 22 de abril de 2017


O ARTIGO TERCEIRO (5)

REFLEXÕES SOBRE O PODER

                                                                                            márcio josé rodrigues


Um cheiro desagradável de bolor, umidade e restos fecais em decomposição dominava o espaço da quase escurecida caverna naquela hora mais quente do dia.
Mesmo que a esta hora todos os seus ocupantes devessem estar adormecidos, Sapolítico não conseguia fechar os olhos descomunais.
Uma angústia incontrolável comprimia-lhe o peito à medida que a ansiedade se descarregava em tiques nervosos em seus pulos de cá para lá e de lá para cá num vai vem interminável pelo chão lamacento do recinto. A imensa boca estava seca e o papo tremia num ritmo descontrolado, embora sem emitir algum som. À medida em que a boca mais secava, a baba espessa lhe colava a língua ao céu da boca.
Sapolítico sentia medo, muito medo.



Alguns assessores, sapolíticos menores distritais, traziam-lhe notícias dos "currais" daando-lhe conta das dificuldades em conseguir os preciosos sufrágios necessários para sua permanência no poder. Os chefetes dos clãs e proprietários da vontade dos eleitores na disputa eleitoral revelavam seu grande descontentamento com o último governo que, não cumprira as promessas da campanha eleitoral nem honrara os compromissos individuais.
Esta, Sapolítico teve que engolir, mesmo com a boca seca.

A cada chefe de grupo local a quem pediam sufrágios, obtinham exigências de trocas, barganhas, nomeações para mais cargos e favores, além do câmbio direto em moeda corrente, sem o menor pudor ou vergonha na cara.
O mais celebrado cidadão, tido como modelo de caráter, alicerce moral das antigas tradições, exemplo vivo às futuras gerações, também votaria no candidato, com a condição de cumprimento de certas exigências em favor pessoal e da família.
O velho Sapolítico, acostumado a viver deste jogo por décadas, sabia muito bem das causas para que se chegasse a este ponto.
Seu partido e seus governos sucessivos haviam destruído a educação, ridicularizado as crenças, explorado a fraqueza dos necessitados e a ganância dos ricos.

Em Lagoa não havia mais sufrágios de graça como nos velhos tempos em que se votava num cidadão e em suas propostas, por direito e vontade cívica livre de cada um.

A busca desenfreada pelo poder determinara a corrosão das consciências e tornara o precioso e sagrado sufrágio em reles matéria de barganha. 
Na medida em que se digladiavam na conquista de um eleitor, o preço por um voto tornara-se impraticável e, sem o respectivo pagamento não havia voto.

“Toma lá, dá cá”, “é dando que se recebe” e mais a velha e simples lei da oferta e da procura.




Sino português - do reinado de Dom João I instalado com a criaçao da "Villa da Laguna de Santo Antônio" em 1714. (roubado  e não procurado do Museu Anita Garibaldi em 2016)



Réquiem para uma cidade

Minha querida cidade
Onde passei minha infância,
Onde colhi a fragrância
Dos dias da mocidade.

Onde plantei os meus sonhos,
Onde sonhei meus amores,
Onde, nas mãos de impostores,
Chegaram dias tristonhos.

Venho encontrar-te em desgraça
Abandonada na rua,
Miserável, pobre e nua
Em tua fria carcaça.

Ao teu cadáver,  a massa
Baixa os olhos, de vergonha,
Toda esta gente pidonha,
Indiferente, que passa.

O que fizeram contigo?
Quem te feriu desse jeito?
Quem rasgou assim teu peito
E te infringiu tal castigo?

Pobre,  mendiga cidade
Das ruas cheias de lixo,
Do " cidadão" que é um bicho,
Que te suga sem piedade.

Seu  caráter,  tão rameiro,
Que mesmo não sendo pobre,
Por umas moedas de cobre
Te vende por vil dinheiro.

Gente que se acha astuta
Faz do voto um rendimento,
Como o gigolô nojento,
Que vive da prostituta.

Só te sobrou esta escória
Para suster teu presente?
O que quer toda essa gente
Que te perdeu a memória?

Ao turvar este teu  brilho,
Ao te cavar teu jazigo,
Na mesma tumba, contigo,
Sepulta seu próprio filho.

Pois, quem mata sua terra,
O próprio destino sela:
Também vai  morrer com ela
E a mesma cova o enterra.
  

quarta-feira, 12 de abril de 2017

 O ARTIGO TERCEIRO (4)

                            A HISTORIA DE RANA
                                                                             marcio jose rodrigues
           
Rana era uma linda perereca que habitava com sua pobre família à beira de um lindo lago.
            O lugar, aparentemente pacato e sem novidades importantes, tinha entardeceres paradisíacos e quando o sol se punha por trás das montanhas, nas águas lisas como um lençol estendido a perder de vista, os tons de azul refletidos do céu mesclavam-se a lilases e róseos e, muitas vezes, de fogo. Parecia então que, se ela ali mergulhasse, lá no fundo alcançaria a imensidão do céu.

Entardecer em Laguna - Brasil
            Este era também o momento mágico do despertar de Lagoa, quando os jovens se reuniam em coro para saudar o aparecimento da lua que não tardaria a chegar.
            Rana não era como a maioria despreocupada das companheiras que, adoravam coaxar a noite inteira até o nascer do sol.
            Sua vida jovem de apenas quatorze anos e irmã de uma poça inteira de girinos, era a de acordar com o ocaso e só repousar com a aurora, cuidando, provendo alimentos e executando até trabalhos braçais masculinos. A mente, contudo, permanecia viva e repleta de sonhos engaiolados  sem liberdade de voar,  como as garças brancas e os biguás. Sentia dentro do seu inquieto coração que o mundo não era apenas aquilo e sonhava à porta da toca dos ribeirinhos.
            
Sem nenhum aviso, a miséria e a fome chegaram de mãos dadas quando o pai de Rana morreu e foi levado ao sambaqui. 
            O mundo de Lagoa sempre foi cruel com os enfraquecidos e despreparados.
            A “seleção natural” não conhece misericórdia.
À pobre família restou barganhar sua linda prenda com um batrachio viciado em suco fermentado a quem chamavam “Sapateiro” e lha deram em matrimônio.
            Não houve romance nem felicidade no pouco tempo em durou esta aberração.

     Um dia começaram os rumores.
            Viventes de terras longínquas do sul estavam em revolta contra os desmandos e os pesados tributos cobrados por Sapotentes Imperiais, insensíveis e distantes.
             Um grande exército esfarrapado moveu-se na direção de Lagoa. Os viventes locais agitaram-se e bateram muito papo, dançaram e cantaram anunciando um novo mundo com nova sapolítica em que o “todo poder emanaria dos bagres”.
            De fato, os esfarrapados chegaram, expulsaram os imperiais e proclamaram que Lagoa agora era Capital de uma pátria livre.
            Sapateiro aproveitou a onda e fugiu com eles, abandonando casa e família.
            
Entre os comandantes das forças libertadoras havia alguém que tinha um sotaque diferente, vindo de uma terra de além-mar. Falava coisas bonitas e sabia coaxar canções sapolitanas.
            O amor entre a linda Rana e Giusappo Garibaldi foi bonito e selado definitivamente quando ele lhe disse num momento solene:
            
- “D’ora in piu tu sarai la mia Ranita”.
           
Ranita era mais que uma “femina”. Sabia amar o amor de um guerreiro e a ele entregou-se, corajosa e sonhadora, de corpo, vida e destino. Todo o sonho que estava aprisionado em si explodiu naquele momento de lutas e perdas numa heroína de fogo e sangue, de proporções muito maiores do que a mesquinhez de Lagoa jamais poderia compreender e engolir.
            Para os lagoenses Ranita não passaria nunca de uma degenerada. Jamais a perdoaram e por mais de um século sua imagem foi tripudiada, motivo de risos e chacotas difamantes.

            Mas, os lagoenses estão perdendo tudo. Sua história vai aos poucos para as lixeiras dos sambaquis, jamais lançam olhares à distância, deixam levar suas mais preciosas relíquias, sem reação, numa apatia doente e vergonhosa.  A eles interessa apenas a vantagem que possam arrancar do momento, uma sociedade perdedora do passado e despreparada para o futuro.
           
 A Seleção Natural tomará conta deles.
          
  No momento, entretanto, estão arrancando Ranita do túmulo onde repousa com honras de “Heroína de dois Mundos”, tentando salvar alguma vantagem que atenda aos seus negócios de comércio, atraindo visitantes para Lagoa.

Monumneto aAnita Gariraldi- Itália
          
  OS LAGOENSES NÃO MERECEM RANITA.

          
  Para este simples cágado contador de causos, Ranita é a fêmea que a “Seleção Natural” não conseguiu apagar. Tendo apenas seu caráter e seus sonhos como arma de combate, saiu à frente do seu tempo e projetou sua imagem feminina para todas as outras com lições imortais de como se ama sua pátria, seus filhos, seu companheiro de vida.  De como se pode ser um ente livre, de corpo e de alma, igual em natureza, altivez e força.
            Ranita não me sai da mente, nem do coração e por isso arrisco, embora não seja um sapo cantor, a dizer estes versos:

         
            Raninha, filha do vento,
            Não cases com Sapateiro
            Não é o teu sentimento
            Não é amor verdadeiro.
           
            Raninha, linda criança,
            Por que não ficas comigo?
            Este marujo de França
            Te arrastrá ao perigo.

            Ranita, morena linda,
            Não abandones tua terra.
            Não terás paz nesta vida,
            Nem no amor ou na guerra
           
            Ranita, a gaivota errante
            Retorna à beira do cais
            Mas, tu já vais tão distante...
            - Adeus!”-  para nunca mais.


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